Ser e Não Ser

Vivemos num mundo dual. Essa dualidade está bem expressa no conceito oriental do Yin e Yang que se encontra simbolizado desde as eras mais remotas em muitas tradições, tais como, o Taoísmo, o Budismo, o Judaísmo ou o Cristianismo. Todas elas proclamam que a infinidade una se manifesta em tendências complementares antagónicas numa mutação sem fim. Significa que todos os antagonismos são complementares e um não existe sem o outro. Um determinado conceito não existe por si só ou não tem significado sem a existência do seu complementar. Assim, o conceito de leve não pode ser dissociado do pesado, o frio do quente, o alto do baixo, o maior do mais pequeno, o exterior do interior, o feminino do masculino e por aí fora. A concretização desta ideia em linguagem fotográfica iniciou-se com o projecto a que dei o nome de "Ser e Não Ser" mostrado pelo primeira vez na exposição IN LUDO, efectuada em Dezembro de 2013, no Museu da imagem em Movimento (MIMO), em Leiria. O projecto prossegui com as exposições efectuadas na Galeria da Caixa de Crédito Agrícola de Alcobaça, em 2017 (17 FOTÓGRAFOS), e em 2018 (Caixa 17.35 - Encontro de Fotografia de Alcobaça). O que aqui se mostra é o projecto desde o seu início e sua continuação que ainda não tem fim á vista.

João Daniel

Ilusão Identitária

 

Somos energia aprisionada em forma de matéria. Somos e estamos imersos/emersos em múltiplas energias das mais subtis às mais densas. Usamos invólucros a que damos o nome de corpos e pensamos que é o nosso verdadeiro eu, mas a nossa verdadeira essência está muito para além disso. Confundimo-nos com nós próprios. Por isso, não importa que não consigamos identificar as personagens porque verdadeiramente não são elas! (projecto iniciado em 2014)

 

Brotei do caos, da nebulosa obscura, e fui matéria esparsa na amplidão…..”

(Extraído do soneto “Evolução” que abre o livro «Sonetos e Outras Poesias» de João da Trindade Ferreira, Porto, 1955.)

 

Alcobaça vs Não-Alcobaça

Em 2013, frequentei uma acção de formação intitulada “Observ@rte - Criatividade, Museus e Educação” que decorreu no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Um do formadores propôs-nos uma saída/passeio fotográfico pelas imediações do Museu, em busca de Não-Lugares. Foi a primeira vez que tomei contacto com esse termo. Para aprofundar o assunto foi sugerida a leitura do livro “Não-Lugares, introdução a uma antropologia da sobremodernidade”, de Marc Augé. É dito na lombada do livro, que li mas não  assimilei em toda a sua essência, que o autor continuou com a temática da antropologia do quotidiano aflorada em alguns seus livros anteriores, explorando desta vez os não-lugares, espaços nos quais a identidade se torna um passo para o anonimato. Diz-se ainda que o autor propondo uma antropologia da sobremodernidade abre, nesta obra, novas perspectivas que nos introduzem ao que se poderia designar por uma etnologia da solidão. Depois de ler o livro e de alguma discussão com o João Lima, colega e formador de excelência, apesar de  ter continuado um tanto confuso em relação ao conceito de não-lugar, por contraponto ao de lugar, logo me assaltou a ideia de transpor para a minha terra natal, Alcobaça, o vivenciado e experienciado nas sessões teóricas e no passeio fotográfico. Transmiti-lhe a ideia e até o convidei para no futuro fazer a introdução para o possível trabalho fotográfico que desde logo intitulei “Alcobaça vs Não-Alcobaça”, ao que ele anuiu. Já tinha bastantes fotografias de Alcobaça mas a partir daí passei a vaguear pela terra de máquina ás costas com o objectivo de desenvolver o projecto, apesar de continuar a achar  muito complicado essa coisa de distinguir lugar de não-lugar! Não sei ainda quando vou finalizar e dar corpo ao projecto mas entretanto vou fotografando.

Zapping

Contratempo. Mudança de cenário. Carregar no botão. Imagens distantes de acontecimentos próximos! Mudar! Imagens próximas de acontecimentos distantes! Mudar de novo! Imagens úteis com diálogos inúteis ou imagens inúteis com diálogos úteis! Impossível estabilizar. Avançar num qualquer desporto mas como o preferido é sempre outro há que trocar de campo. Surpresa: os anúncios são melhores sem som. Basta! Agora música tenebrosa adivinha cena ainda mais tenebrosa. Meia-volta que ninguém gosta de sustos. Cena cheia de mulheres ainda mais cheias de vazios. Para tapar vazios basta uma pílula! Como não é altura para químicos, continua-se. Os olhos já piscam, a mudança permanece. Nova visão, mas como as crianças já deviam estar a dormir a cena está fora de horas. Frustração. Relatos de acontecimentos que não o são! Permanecer sem estar! Olhar e não ver! Os olhos a pesar. Mudar porque sim! Obsessão continuada! Subitamente nem a melhor música soa bem. A próxima é que é! Sentir-me poderoso a comandar “shares” imaginários! Paranóia! Estar farto mas não se enfartar! De repente, fim em letras gordas. É agora! Nem pensar. Nem sentir. Nem sair. Não, também não é necessário o psiquiatra! Os olhos fecham. To be continued.

Zapping, projecto iniciado em 2011, é o que o próprio nome sugere. Iniciou-se numa noite de insónia depois de desencontros telefónicos. Não estava disponível para a leitura e as redes sociais não eram alternativa. Não vejo muita televisão mas estava mesmo ali à frente e atraiu-me. O resultado foi noites adentro distraído a fotografar e a ultrapassar desafios técnicos.